Legado Puritano
Quando a Piedade Tinha o Poder
Áudios
Deus Requer Santificação aos Cristãos 75
Data: 30/03/2022
Créditos:
Texto: Silvio Dutra
Voz: Silvio Dutra

 

"1 Eu, porém, irmãos, não vos pude falar como a espirituais, e sim como a carnais, como a crianças em Cristo.

2 Leite vos dei a beber, não vos dei alimento sólido; porque ainda não podíeis suportá-lo. Nem ainda agora podeis, porque ainda sois carnais.

3 Porquanto, havendo entre vós ciúmes e contendas, não é assim que sois carnais e andais segundo o homem?" I Cor 3.1-3.

 

Ao dizer que os crentes coríntios eram carnais, o apóstolo não pretendeu afirmar que eles ainda estavam na carne, em uma condição inteiramente carnal, como é o caso dos não regenerados, mas que em vez de estarem seguindo o pendor do Espírito, mortificando o pecado, estavam deixando se conduzir segundo o homem natural, sem estarem fazendo progresso em santificação por um crescimento espiritual. Daí ter se referido a eles como carnais, porque estavam seguindo o pendor da carne, que dá para a morte espiritual, que nos impede de discernir e fazer a vontade de Deus.

Nós podemos observar em ambas as epístolas dirigidas por Paulo à Igreja de Corinto a ausência da exposição de doutrinas capitais e profundas sobre a vida e pessoa de Jesus Cristo, conforme podemos observar na epístola aos Romanos e Efésios, porque sendo formadas de crentes espirituais em sua maioria, poderiam bem entender e explicar a outros todas aquelas verdades espirituais. Mas, no caso de Corinto, o que temos da parte do apóstolo para eles é: “não vos pude falar como a espirituais, e sim como a carnais, como a crianças em Cristo.” E de fato, é perda de tempo falar daquilo em que consiste a vida de santidade pelo conhecimento espiritual de Cristo a quem é de mente carnal, pois somente o que tem a mente espiritual de Cristo pode discernir o modo de vida que está escondido nEle e reservado por Deus para ser compartilhado com aqueles cujas mentes estão sendo renovadas continuamente pelo Espírito Santo, para compreenderem qual seja a boa, perfeita e agradável vontade de Deus.

 

A santificação é um processo que é conduzido por um princípio de santidade implantado por Deus em nossa mente e coração e que funciona à medida que exercitamos os meios de graça designados por Ele para tal propósito, de maneira que se não o fizermos seremos carnais e mundanos, e se o fizermos, seremos cada vez mais espirituais e santos. Quando alguém se encontra ainda no início do caminho deste processo de santificação, desde que seja contínua e sincera a sua disposição de amar e servir ao Senhor de todo o seu coração, ele será aceitável a Ele ainda que haja muitas falhas em seu comportamento e conduta pela falta de uma melhor compreensão do que seja a santidade evangélica. Mas são os que atingem o grau de maturidade espiritual e cujo coração é segundo o coração de Deus que são todo o Seu prazer, por viverem de modo inteiramente agradável a Ele, segundo a Sua boa, perfeita e agradável vontade.

É lamentável, mas real, a mentalidade moderna que prevalece entre os crentes de que não é possível ter uma mente espiritual e se alcançar um modo de vida santo, pois o ser humano está muito mais voltado para fazer o que é errado do que aquilo que é correto. Mas, quem disse que ser santo consiste meramente nesta questão de se errar ou não errar? E mais do que isso, como é possível se admitir tal forma de pensamento que faz de Jesus não o Salvador e quem nos livra do pecado, mas um ministro do pecado? Se Ele não pode produzir em nós o viver santo que nos impõe, então é um farsante, para tais pessoas, pois não seria poderoso o suficiente para realizar aquilo que exige. Todavia, mesmo para estes crentes carnais e mundanos, enquanto tendo sido justificados de fato por Ele, deu-lhes o poder de serem feitos filhos de Deus, ainda que sejam filhos que vivam de modo rebelde contra a vontade de Seu Pai, e pouco ou nada interessados e ocupados em dar-Lhe glória por um viver santificado na prática de boas obras de fé.

Qual é a razão da cegueira dos crentes da Igreja de Laodiceia, que é a predominante nestes últimos dias? Eles não sabem por experiência própria que a intimidade do Senhor é para aqueles que o amam e temem. Ninguém pode participar da ceia espiritual em comunhão com Jesus, sem abrir-lhe a porta de seu coração e sem arrependimento e vitória real sobre o pecado.

É o próprio Deus, que infunde em nós esta inclinação para se consagrar a Ele e viver para honrá-lo, por obediência à Sua Palavra. Mas Ele somente o faz com aqueles que o buscam de todo o seu coração. É somente a estes que o temem e buscam que Ele se deixa achar e manifesta e produz neles o bom espírito reto pelo qual Davi orava para que fosse criado nele.

 

A disposição de coração e alma, que coloco como a primeira propriedade ou efeito do princípio de santidade, conforme declarado e explicado antes, é o que a Escritura chama de temor, amor, deleite e outras afeições que expressam uma consideração e inclinação constantes para com seus objetos. Porque essas coisas não denotam o próprio princípio da santidade (que está situado na mente, ou compreensão e vontade), porque são apenas os nomes dos nossos afetos; mas eles significam a primeira maneira pela qual esse princípio atua, de uma forma de inclinação santa do coração para a obediência espiritual. Então, quando o povo de Israel se comprometeu por uma aliança solene em ouvir e fazer tudo o que Deus ordenou, Deus acrescenta sobre isso, "Quem dera que eles tivessem tal coração, que me temessem e guardassem em todo o tempo todos os meus mandamentos, para que bem lhes fosse a eles e a seus filhos, para sempre!" Deut 5.29 - isto é, que a inclinação de seus corações fosse sempre obediente. Isso é o que se pretende na promessa da aliança: Jer 32.39, "Dar-lhes-ei um só coração e um só caminho, para que me temam todos os dias, para seu bem e bem de seus filhos." Este é o mesmo que o "novo espírito", Ez 11.19. O novo coração, como declarado anteriormente, é a nova natureza, a nova criatura, o novo, espiritual, princípio sobrenatural de santidade. O primeiro efeito, o primeiro fruto disso é o temor de Deus sempre, ou uma nova inclinação espiritual da alma para toda a vontade e comandos de Deus. E este novo espírito, este temor de Deus, ainda é expressado como a consequência inseparável do novo coração, ou a escrita da lei de Deus em nossos corações, que são iguais. Por isso é chamado, "tremendo, se aproximarão do SENHOR e da sua bondade." Os 3.5. Da mesma maneira, é expressado pelo "amor", que é a inclinação da alma a todos os atos de obediência a Deus e à comunhão com ele, com deleite e contentamento. É uma consideração por Deus e sua vontade, com uma devida reverência por sua natureza e um deleite nele, que é adequado para aquela relação de aliança na qual ele está conosco.

É, além disso, expressado por uma mente espiritual: "Porque o pendor da carne dá para a morte, mas o do Espírito, para a vida e paz.", Rm 8.6; - isto é, a inclinação da mente para as coisas espirituais, é aquela pela qual vivemos para Deus e desfrutamos de paz com ele; é "vida e paz". Por natureza, saboreamos apenas as coisas da carne, e nós "cuidamos das coisas terrenas", Fp 3.19; nossas mentes ou corações estão postos nelas, dispostos para elas, e prontos para todas as coisas que nos levam ao gozo delas e satisfação nelas. Mas, por esta nova natureza, nos importamos com as coisas que estão acima, ou colocamos nossas afeições nelas, Col 3.1,2. Em virtude disso, Davi professa que sua "alma seguiu arduamente a Deus", Salmo 63.8, ou foi inclinado sinceramente a todas as maneiras pelas quais ele poderia viver para Deus e chegar ao gozo dele. É como a seriedade de alguém em busca de algo que está continuamente em seus olhos, como nosso apóstolo expressa, Fp 3.13,14. Isto é comparado pelo apóstolo Pedro àquela inclinação natural que está naqueles que estão com fome de comida: 1 Pedro 2.2, "Como bebês recém-nascidos, desejem o leite sincero da palavra, para que assim vocês cresçam;" que é uma constante e inalterável inclinação. Isto, portanto, é o que pretendo: Toda natureza tem sua disposição para atos que são adequados para isso. O princípio da santidade é uma tal natureza, uma nova ou divina natureza; onde quer que esteja, ele constantemente inclina a alma para deveres e atos de santidade; produz uma disposição constante para eles. Pelo próprio princípio de santidade, o princípio contrário do pecado e da carne é prejudicado e subjugado. Assim também, por esta disposição graciosa, a inclinação para o pecado que está em nós, é enfraquecido, prejudicado e gradualmente levado embora. É por isso que, onde quer que esteja este princípio de santidade, ele dispõe ou inclina toda a alma para atos e deveres de santidade.

Pensar e ocupar-se de maneira intensiva com as coisas que são terrenas faz com que automaticamente excluamos Deus e ua vontade de nossos pensamentos, e não consideramos que tal desprezo possa ser pecaminoso como de fato ele é. Além disso, em razão de sermos entregues a nós mesmos pelo Senhor, sem que tenhamos a direção e mover do Espírito Santo, faz com que fiquemos totalmente abertos para a prática de pecados, inclusive pelo mau uso de coisas que são lícitas por si mesmas. Este endurecimento de coração e mente faz com que pensemos erroneamente que uma vida carnal e mundana pode ser compatível com uma vida espiritual e santa. E isto é muito comum em nossos dias, em que há tantas solicitações para um viver carnal e mundano, e pouco conhecimento e prática de uma verdadeira vida de santidade.

Em Romanos 8.6 lemos que a inclinação da carne dá para morte, mas a inclinação do Espírito dá para a vida e paz. Em outras palavra isto significa que ser carnal é estar morto, e ser espiritual é ter vida eterna e paz.

Pensamentos e meditações que procedem de afetos espirituais são as primeiras coisas em que consiste a mentalidade espiritual, e por meio do que isto se comprova.

Nossos pensamentos são como as flores de uma árvore na primavera. Você pode ver uma árvore na primavera toda coberta com flores, de forma que nada mais dela aparece. Milhares destas flores caem e não vêm a dar em nada. Frequentemente onde há muitas flores há menos frutos. Mas ainda que não haja nenhum fruto, seja ele de que tipo for, bom ou ruim, ele deve vir de alguma dessas flores. A mente do homem está coberta com pensamentos, como uma árvore com flores. A maioria deles cai, desaparece, e não dá em nada, terminam em vaidade; e às vezes onde há muitos destes pensamentos na mente geralmente haverá menos frutos; a seiva da mente se perde e é consumida neles. O fato de não haver nenhum fruto, seja bom ou ruim, decorre destes pensamentos serem abundantes.

“Como o homem pensa em seu coração, assim ele é.” (Pv 23.7). No caso de tentações fortes e violentas, a real estrutura do coração de um homem não será julgada pela multiplicidade de pensamentos sobre qualquer objeto, porque se eles são oriundos das sugestões de Satanás, imporão um senso ininterrupto deles na mente.

Todavia, pensamentos normalmente voluntários são a melhor medida e indicação da estrutura de nossas mentes. Como a natureza da terra é julgada pela grama que produz, assim a disposição do coração pode ser avaliada pela predominância de pensamentos voluntários; eles são as ações originais da alma, o modo por meio do qual o coração esvazia o tesouro que está no seu interior. O coração de todo homem é a tesouraria dele, e o tesouro que está nele ou é bom ou mau, como nosso Salvador nos fala. Há um tesouro bom e ruim do coração; em qualquer homem, seja ele bom ou mau, lá está. Este tesouro está abrindo, esvaziando, e se gastando continuamente, entretanto nunca pode ser esvaziado; porque ele tem uma fonte, que não pode ser esgotada Quanto mais você gasta do tesouro de seu coração, mais você terá em abundância um tesouro do mesmo tipo. Seja bom ou mau, cresce por gasto e exercício; e o modo principal por meio do qual avança é através dos pensamentos da mente. Se o coração é mau, eles são na maior parte vãos, imundos, corruptos, maus, tolos.

Portanto, estes pensamentos dão a melhor medida da estrutura de nossas mentes e corações.

E isto é voluntário, porque a mente de si própria é hábil para inclinações e produz pensamentos até mesmo fora do controle da nossa vontade. Assim os homens podem ter uma multidão de pensamentos relativos aos assuntos da sua vocação, e não terem ainda nenhuma medida devida de estrutura interior dos seus corações.

Assim os homens cujo chamado e trabalho é estudar a Bíblia, e pregá-la a outros, podem não ter muitos pensamentos sobre coisas espirituais, e ainda pode ser, que frequentemente sejam remotamente espirituais. Eles podem ser forçados pelo trabalho deles e chamada a ocuparem suas mentes dia e noite com tais pensamentos, mas ainda assim, não serem espirituais. Seria bom que todos os pastores se examinassem diligentemente nisto. “Eles vêm a ti, como o povo costuma vir, e se assentam diante de ti como meu povo, e ouvem as tuas palavras, mas não as põem por obra; pois com a boca professam muito amor, mas o coração só ambiciona lucro.” (Ez 33.31).

É o grande caráter e descrição da estrutura das mentes de homens em uma condição de irregenerados, ou antes da renovação das naturezas deles, que “toda imaginação dos pensamentos dos seus corações só é continuamente má” (Gênesis 6:5). Eles estão cunhando invenções e imaginações continuamente nos seus corações, e estampando-os em pensamentos que são vãos, tolos, e maus.

Todos os seus demais pensamentos são ocasionais; estes, são o produto natural, genuíno dos seus corações. Consequentemente, a mais querida, e às vezes primeira, descoberta do tesouro mau, que não tem fundo, de sujeira, loucura, e maldade que está por natureza no coração do homem é da multidão inumerável de imaginações más que são cunhadas lá e que são empurradas adiante diariamente.

Assim, é dito que “os perversos são como o mar agitado, que não se pode aquietar, cujas águas lançam de si lama e lodo.” (Is 57.20).

Há uma abundância de maldade nos seus corações, assim como água no mar; esta abundância é colocada em movimento ininterrupto pelas suas cobiças e seus desejos impetuosos; consequentemente o lodo e sujeira de pensamentos maus são somados continuamente neles.

É então evidente que a predominância de pensamentos voluntários é a melhor e mais segura indicação da estrutura interior e do estado da mente; porque se é assim por um lado com a mente carnal, dá-se o mesmo por outro lado, com a mente espiritual. Portanto, ser espiritual, em primeiro lugar, é ter no curso e fluxo desses pensamentos, que são comumente produzidos por nós, aquilo que nós aprovamos por serem resultantes de nossos afetos pelas coisas espirituais. Nisso consiste a inclinação do Espírito.

E estes pensamentos em exercício espiritual hão de se manifestar em atitudes e em um comportamento diligente e santo, em todas as coisas, quer interiores, quer exteriores, como por exemplo trazer todos os nossos negócios e deveres em boa ordem e limpeza, como no caso das esposas que devem ser boas donas de casa, amando seus respectivos maridos e filhos, em uma demonstração prática de empenho em cuidado do lar, por amor a Deus e a eles. Enfim, cabe a todos servirem sem qualquer intenção de serem também servidos, porque Deus há de nos rcompensar e servir, Ele mesmo, quando estivermos assim aplicados em obedecer os Seus mandamentos e vontade.

 


 

Enviado por Silvio Dutra em 28/01/2022
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