Legado Puritano
Quando a Piedade Tinha o Poder
Áudios
Deus Requer Santificação aos Cristãos 77
Data: 04/04/2022
Créditos:
Texto: Silvio Dutra
Voz: Silvio Dutra

 

“Não sabes, não ouviste que o eterno Deus, o SENHOR, o Criador dos fins da terra, nem se cansa, nem se fatiga? Não se pode esquadrinhar o seu entendimento. Faz forte ao cansado e multiplica as forças ao que não tem nenhum vigor. Os jovens se cansam e se fatigam, e os moços de exaustos caem, mas os que esperam no SENHOR renovam as suas forças, sobem com asas como águias, correm e não se cansam, caminham e não se fatigam.” (Isaías 40.28-31)

 

Deus não se cansa em renovar as forças daqueles que o temem e que nEle esperam. Na verdade, eles não têm qualquer força em si mesmos para um viver em justiça na presença do Deus santo e justo, e a renovação de força aqui referida é a troca da falta de força deles para os deveres de adoração, pela força do próprio Deus. 

E para que isto seja feito é necessário primeiro que a multidão de pecados que há na vida de qualquer pessoa seja perdoada, sem se levar em conta o grau de impiedade de cada um deles, pois à vista de Deus não há um justo sequer.

"Eis que temos por felizes os que perseveraram firmes. Tendes ouvido da paciência de Jó e vistes que fim o Senhor lhe deu; porque o Senhor é cheio de terna misericórdia e compassivo." (Tiago 5.11).

Oh! Com quanta compaixão está o coração do Senhor por aqueles que o temem e tremem da Sua Palavra! Que aguardam inteiramente nEle e somente nEle pela Sua misericórdia e livramento!

Veja o caso da prostituta que foi perdoada por Jesus na casa do fariseu Simão (Lc 7.47). Ela foi justificada e regenerada por aquele perdão para ser introduzida em uma vida de santificação para a renovação total de sua vida.

A concessão de perdão na justificação é a mesma que continua na santificação, e quanto necessitamos todos nós disso, pois só podemos ser perdoados e aceitáveis a Deus nos termos do Evangelho!

A que havia sido prostituta ainda teria muitos outros pecados dos quais ser perdoada ao longo de sua vida, e ela havia aprendido que para tal deveria recorrer diretamente a Jesus, como havia feito no princípio, e não a fórmulas ou a resoluções próprias para reforma, pois somos perdoados e salvos simplesmente por olhar pela fé para Jesus, e para nada e ninguém mais. "Olhai para mim e sede salvos" é o que ordena a Palavra.

É somente assim que obtemos "força" ou "poder": Is 40.31, pois "Aqueles que esperam no Senhor renovam sua força," isto é, força para obedecer ou andar com Deus sem cansaço. Eles têm força, e é renovada ou aumentada em seu caminhar com Deus. Pela mesma graça, somos "fortalecidos com todas as forças, de acordo com o glorioso poder de Deus," Cl 1.11; ou "fortalecido com poder pelo seu Espírito no homem interior", Ef 3.16; pelo qual "podemos fazer todas as coisas por meio de Cristo que nos fortalece", Fp 4.13. Em nosso chamado ou conversão para Deus, "todas as coisas nos são dadas" por seu "poder divino", que "pertence à vida e piedade", 2 Pedro 1.3 - tudo o que é necessário para nos permitir viver uma vida santa. O hábito e princípio da graça que é trabalhado nos crentes dá-lhes novo poder e força espiritual para todos os deveres de obediência. A água do Espírito neste hábito não é apenas uma "fonte de água" habitando neles, mas "jorra para a vida eterna", João 4.14; isto é, continuamente nos capacita a ter atos graciosos que têm tendência à obediência. Há suficiência na graça que Deus concedeu àqueles que creem, para capacitá-los à obediência que é exigida deles - então Deus disse ao nosso apóstolo quando ele estava prestes a desmaiar sob sua tentação, de que "Sua graça era suficiente para ele", 2 Cor 12.9 - ou há um poder em todos aqueles que são santificados, pelo qual eles são capazes de render toda a santa obediência a Deus. Eles estão vivos para Deus, vivos para a justiça e santidade. Eles têm um princípio de vida espiritual; e onde há vida, há poder em seu tipo, e para o seu fim. É por isso que não existe apenas um princípio ou hábito inerente da graça concedida a nós em nossa santificação, pela qual nós realmente e habitualmente diferimos de todas as pessoas não regeneradas quanto ao nosso estado e condição - mas, além disso, pertence a ele um poder ativo, ou uma habilidade para uma obediência espiritual e santa, da qual ninguém participa, exceto aqueles que assim são santificados. E este poder diz respeito a todos os comandos ou preceitos de obediência que pertencem à nova aliança. Tudo o que Deus requer ou exige de qualquer pessoa, em virtude da antiga aliança ou seus preceitos, foi por conta e proporcional à força dada sob e por essa aliança. E o fato de termos perdido essa força pela entrada do pecado, não nos isenta da autoridade do comando. É por isso que somos justamente obrigados a fazer o que não temos poder para fazer. Então também, o comando de Deus sob a nova aliança, quanto a toda aquela obediência que ele exige de nós, respeita àquele poder que é dado e comunicado a nós por essa aliança. E este é o poder que pertence à nova criatura: o hábito e o princípio da graça e santidade que, como nós temos provado, é operado pelo Espírito Santo em todos os crentes.

Não há qualquer exagero em se afirmar que toda a nossa vida é dependente de Jesus. Na verdade, a vida eterna, a vida que é poder, procede da comunhão com Ele, e é mantida e aumentada somente por Ele. Desde que o primeiro homem pecou, ele e toda a sua descendência foram encerrados sob o pecado, e o estado que se seguiu foi o de morte da vida e poder de Deus em nós. Nossos corpos se cansam, envelhecem e se desfazem no pó. Os ossos e todo o material que se desfez continuam existindo, mas sem qualquer vida neles. Mas mesmo nós, os que ainda não chegamos à sepultura, quando não estamos em comunhão com Cristo, mesmo existindo, estamos mortos, porque faltará em nós aquele vigor e excelência de poder que procedem somente dEle, e os quais caracterizam os que estão realmente vivos. E tudo isto se aplica também à alma e ao espírito. E principalmente a estes, porque são o canal pelo qual a vida de Cristo é aplicada em nós, pois o corpo já recebeu a sentença de morte e está destinado a se desfazer no pó, mas o homem interior, a nova criatura, se renova dia a dia, ganhando mais força e poder na comunhão com Cristo que é a fonte de sua vida. Daí necessitarmos da santificação, pois o estado da vida eterna é santidade, e sem santidade há morte.

Jesus diz em Mt 12.35 que “O homem bom tira do tesouro bom cousas boas; mas o homem mau do mau tesouro tira cousas más.”.

Primeiro, o homem citado é bom; como ele disse antes no verso 33: “Ou fazei a árvore boa e o seu fruto bom, ou a árvore má e o seu fruto mau; porque pelo fruto se conhece a árvore.”. Ele é feito assim por graça, na mudança e renovação da sua natureza; porque em nós mesmos não habita qualquer bem. Este homem bom tem um bom tesouro no seu coração. Mas todos os homens têm; como está dito: “mas o homem mau do mau tesouro tira cousas más.”. E esta é a grande diferença que há entre os homens neste mundo.

Todo homem tem um tesouro no seu coração; quer dizer, um princípio inesgotável de todas suas ações e operações. Mas em alguns este tesouro é bom, em outros é mau; quer dizer, o princípio prevalecente no coração é o que leva junto com isto suas disposições e inclinações, para serem boas ou más. Do bom tesouro saem coisas boas. É a presença do Espírito Santo no coração do crente que lhe dá tal inclinação para o que é bom, e que lhe permite ter bons pensamentos, segundo o coração de Deus. Os pensamentos que surgem do seu coração são da mesma natureza do tesouro que está nele. Se os pensamentos que naturalmente surgem em nós forem em sua maior parte vãos, tolos, sensuais, terrenos, egoístas, tal é o tesouro que está em nossos corações, e tal somos nós; mas onde os pensamentos que assim naturalmente procedem do tesouro que está no coração são espirituais e santos, é uma prova que somos de fato espirituais.

Alguém que seja meramente religioso, que não tem o Espírito Santo, está desprovido da fonte de onde fluem os bons pensamentos, e assim, poderá apresentar uma fachada religiosa como os fariseus, que eram tidos na conta de homens santos, mas os seus pensamentos, ainda que não manifestados exteriormente em palavras e ações, tinham sua prevalência na fonte má de suas naturezas caídas. Por isso nosso Salvador lhes tirou a máscara quando disse que eram sepulcros caiados, bonitos por fora, mas cheios de podridão no seu interior.

Por isso os homens podem ter pensamentos relativos às coisas espirituais, e que em sua maioria não surgem deste princípio interno da graça, mas isto pode ser entendido por duas outras causas:

1. Força interior.

2. Ocasiões externas.

1. Força interior, como pode ser chamado, se refere a convicções. Convicções colocadas como um tipo de força na mente, ou uma impressão que faz com que a mesma aja de modo contrário à sua própria disposição e inclinação habitual. Está na natureza da água descer; mas se aplicamos um instrumento fazendo compressão na mesma, isto a forçará a subir veementemente, como se isso fosse seu movimento natural. Mas tão logo cesse a força que é imprimida sobre ela, imediatamente voltará à sua própria tendência, e descerá. Ocorre o mesmo frequentemente com os pensamentos dos homens. Eles são terrenos, o seu curso natural e movimento são para baixo até às cousas terrenas; mas por uma impressão de convicção eficaz na mente, isto forçará os seus pensamentos para cima em direção às coisas divinas. Pode mesmo se pensar por muito tempo que seja este o seu curso e movimento natural, mas tão logo cesse o poder da convicção de sobre a mente, os pensamentos retornarão novamente ao seu velho curso, e tenderão para baixo, para as cousas terrenas, assim como a água, em nossa ilustração.

Este estado e estrutura são descritos no Salmo 78.34-37: “Quando os fazia morrer, então o buscavam; arrependidos procuravam a Deus. Lembravam-se de que Deus era a sua rocha, e o Deus Altíssimo o seu redentor. Lisonjeavam-no, porém de boca, e com a língua lhe mentiam. Porque o coração deles não era firme para com ele, nem foram fiéis à sua aliança.”.

Os homens quando em dificuldades, perigos, doenças, temores de morte, ou debaixo de convicção forte de pecado, tentarão pensar e meditar em coisas espirituais; mas não poderão fazer sair coisas boas de uma fonte má, e assim, ainda que seja forte o esforço que façam para obedecer à vontade de Deus, isto não passará de hipocrisia e fingimento, porque a sua verdadeira inclinação e disposição interior não é espiritual, mas carnal. Assim, com a boca podem louvar a Deus, mas o seu coração não será firme para com Ele, e os pensamentos espirituais que se esforçaram por manter, se deterioraram e desapareceram e a mente foi impelida à sua posição natural. O profeta dá a razão disto: “Pode acaso o etíope mudar a sua pele ou o leopardo as suas manchas? Então poderíeis fazer o bem, estando acostumados a fazer o mal.” (Jer 13.23).

Como estariam inclinados para as coisas espirituais, estando a sua mente inclinada naturalmente para as coisas terrenas? Assim, uma vez cessada a convicção imprimida sobre suas mentes pelas dificuldades que sofriam, eles voltarão ao antigo curso de seus pensamentos.

É por isso que nos é ordenado uma caminhar constante no Espírito, que é a fonte de onde procedem os bons pensamentos. Não há em nós mesmos nenhuma fonte inesgotável e eterna de pensamentos espirituais. Assim, toda a espiritualidade ocasional, produzida por convicções ocasionais renovadas, que sobem e caem, quando estamos debaixo de repreensões de Deus, não são de modo algum o modo com o qual deve ser dirigida nossa vida espiritual., porque estes pensamentos espirituais se deterioram com as nossas convicções, tão logo estas sejam afastadas.

Somente os pensamentos espirituais que surgem de um princípio interno prevalecente de graça no coração; são constantes, a menos que uma interrupção sobrevenha a eles em determinada ocasião através de tentações.

Mas, em tudo isso e em todas as situações, quando alguém que tenha andado de modo muito pecaminoso, é o alvo do mover de amor, misericórdia e compaixão da parte de crentes do seu convívio, a melhor coisa que tal pessoa tem a fazer é correr para Jesus em busca de perdão e arrependimento, pois é pelo Seu próprio mover que estes crentes estão usando de misericórdia, amor e compaixão com tal pessoa desviada, e há nisto um sinal evidente da Sua disposição em perdoar o transgressor.

Enviado por Silvio Dutra em 28/01/2022
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