Legado Puritano
Quando a Piedade Tinha o Poder
Áudios
Deus Requer Santificação aos Cristãos 80
Data: 12/04/2022
Créditos:
Texto: Silvio Dutra
Voz: Silvio Dutra

 

“O SENHOR, teu Deus, circuncidará o teu coração e o coração de tua descendência, para amares o SENHOR, teu Deus, de todo o coração e de toda a tua alma, para que vivas.” (Deut 30.6)

 

Mesmo depois de muita comunhão com Deus, a alma pode entrar em profundezas, como se vê no caso expressado por Davi no Salmo 130.

"1 Das profundezas clamo a ti, SENHOR.

2 Escuta, Senhor, a minha voz; estejam alertas os teus ouvidos às minhas súplicas."

Quando foi capaz de orar assim, ele havia ultrapassado a fase em que a a alma sequer tem forças, ânimo e tranquilidade para achar palavras para expressar a sua condição de sentimento de que não se encontra movida pelo vigor, alegria e paz que procedem do Senhor, e que por vezes, é permitido por Ele que o sintamos por fazer parte do processo de circuncisão do nosso coração, a saber, da nossa santificação, para que tenhamos a plena convicção de que é Ele que tudo opera em nós, e o quanto necessitamos da manifestação da Sua graça em nossa vida para que tenhamos bom ânimo em todas as aflições e circunstâncias. 

Podemos então nos sentir assim, mesmo sabendo que Ele jamais nos deixará ou abandonará, conforme tem prometido, e que todo o nosso relacionamento com Ele se fundamenta somente na graça, na fé e no nosso arrependimento, conforme Davi o expressa com as seguintes palavras no mesmo salmo:

"3 Se observares, SENHOR, iniquidades, quem, Senhor, subsistirá?

4 Contigo, porém, está o perdão, para que te temam.

5 Aguardo o SENHOR, a minha alma o aguarda; eu espero na sua palavra."

Realmente nada podemos fazer para nos sentirmos animados em espírito e no pleno favor e alegria do Senhor, senão clamar a Ele, pondo a fé em exercício, e aguardar o momento em que nos livrará de nossos abatimentos em que nos sentimos em profundezas das quais somente o Senhor pode nos livrar.

Os afetos, que naturalmente são os principais servidores e instrumentos do pecado, estão comprometidos com Deus, como vemos em Deut 30.6. Mas, para isto é necessário primeiro que o próprio Deus circuncide, ou seja, os purifique, pois a referência a coração em Deut 30.6 está relacionada aos afetos.

Na nossa santificação, o Espírito Santo trabalha, afeta e cria em nós um novo, santo, princípio espiritual e vital da graça. Este princípio reside em todas as faculdades de nossas almas, de acordo com o que sua natureza especial é capaz. E isso acontece, na forma de um hábito permanente e predominante que o Espírito Santo nutre, preserva, aumenta e fortalece continuamente usando suprimentos eficazes de graça de Jesus Cristo. Esses suprimentos dispõem, inclinam e capacitam toda a alma para todas as maneiras, atos e deveres de santidade pelos quais vivemos para Deus; e eles se opõem, resistem e, finalmente, vencem tudo o que é oposto e contrário ao princípio de santidade. Isso pertence essencialmente à santidade evangélica - na verdade, a natureza da santidade formal e radicalmente consiste nisso. É a partir disso que os crentes são designados santos; e sem isso ninguém é santo, nem pode ser chamado de santo. As propriedades desse poder são prontidão e facilidade. Onde quer que esteja, ele renderiza a alma pronta para todos os deveres da santa obediência, e torna todos os deveres da santa obediência fácil para a alma.

(1.) Dá prontidão, removendo e retirando todos aqueles estorvos com que a mente tende a ser obstruída e impedida por eles: pecado, o mundo, preguiça espiritual e incredulidade. É a isso que somos exortados como nosso dever, Heb. 12.1; Lucas 12.35; 1 Ped 1.13, 4.1; Ef 6.14. Nessa remoção, o espírito está pronto, embora a carne seja fraca, Marcos 14.38. 

Esses princípios de preguiça e falta de preparação muitas vezes influenciam parcialmente as mentes dos próprios crentes em relação a grandes indisposições para deveres espirituais. Uma falta de preparação espiritual para deveres santos, decorrentes do poder da preguiça ou ocasiões da vida, não é pequena parte de seu pecado e problemas. Ambos são removidos por este poder espiritual do princípio da vida e santidade nos crentes. O poder total predominante da preguiça e circunstância, como existente em pessoas não regeneradas, é quebrado pela primeira infusão de poder espiritual na alma, o que lhe dá uma aptidão habitual e preparação do coração para todos os deveres de obediência a Deus. E por vários graus, libera os crentes dos resquícios dos estorvos que eles ainda têm que contestar. Daí ser essencial para tal propósito que o crente se empenhe na busca da formação do hábito de santidade pela continuidade em sua consagração ao Senhor no exercício dos deveres espirituais da oração e meditação e prática da Palavra, porque uma vez adquirido o hábito, os estorvos que se levantam contra a santidade serão bastante enfraquecidos e facilmente vencidos.

1. Isso enfraquece e remove a inclinação da alma das coisas terrenas, então eles não possuirão a mente como possuíam anteriormente, Col 3.2.

2. Dá uma visão da beleza, excelência e glória da santidade, e todos os nossos deveres de obediência.

"Como eu amo a Tua lei!", diz Davi; "meu prazer está nos seus estatutos; eles são mais doces para mim do que o favo de mel."

Onde essas coisas existem - onde a mente está livre das influências poderosas das luxúrias carnais e do amor deste mundo; onde a beleza e excelência da santidade e os deveres de obediência estão claros aos olhos da alma; e onde as afeições se apegam a coisas espirituais conforme ordenado - então aquela prontidão na obediência de que nós falamos, será encontrada.

Isto proporciona facilidade no desempenho de todos os deveres de obediência.

Isto é fácil para quem está acostumado a isto, embora seja difícil em si mesmo. E o que é feito da natureza é feito com facilidade. O princípio da graça, como temos mostrado, é uma nova natureza, um hábito infundido com respeito à vida de Deus, ou todos os deveres da santa obediência.

Eu admito que haverá oposição a eles mesmo na mente e no próprio coração - oposição do pecado, e de Satanás, e tentações de todos os tipos. Na verdade, eles às vezes podem subir tão alto que derrotam nossos propósitos e intenções no que diz respeito aos nossos deveres, ou nos atolam neles - para remover nossas rodas de carruagem e nos fazer dirigir pesadamente. Mas isso é ainda da natureza do princípio de santidade para fazer todo o curso de obediência e todos os seus deveres fáceis para nós, e nos dar uma facilidade em seu desempenho.

A grande pressão psicológica e espiritual a que está sujeita a humanidade neste período pós-moderno tem sido a causa de muitas enfermidades que têm atingido em cheio a mente e o sistema nervoso central em geral de muitas pessoas, inclusive de crentes. Uma das grandes causas para que mesmo aqueles que têm o Espírito Santo habitando neles, sejam achados muitas vezes sob estas disposições que são contrárias àquele estado calmo e sossegado da alma, acompanhado de uma sensação de bem-estar, geralmente é decorrente do esfriamento no cumprimento dos deveres ordenados a nós como meios de graça para neles sermos exercitados para a comunhão com Deus, como por exemplo a oração, a meditação da Palavra, a aplicação à consagração ao Senhor com a firme determinação de cumprir os Seus mandamentos, a adoração pública na congregação etc.

O mundo tem inventado muitas coisas pelas quais podemos ser atraídos, mas o nosso coração não deve estar apegado a nenhuma delas, e podemos fazer uso de todas elas, caso sejam aprovadas, sem nunca lhes dar contudo o nosso coração.

Assim, isto exige muita sabedoria espiritual para distinguir entre o uso e o abuso destas coisas, entre um cuidado legal sobre elas e um desejo irregular delas. Poucos distinguem isto corretamente, e então conhecerão o grande engano deles no último dia. As coisas do mundo colocam à prova o nosso amor, na disponibilidade dos recursos e bens ao nosso alcance para usá-los bondosa e generosamente no reino de Deus, cuidando das necessidades de outros (Mt 25.34-40).

Porque o amor deve ser de fato e de verdade e não somente de palavras. A disposição e uso das coisas deste mundo para atender às necessidades de outros é uma prova que de fato o nosso afeto não está ligado a elas. O nosso desprendimento e aplicação delas comprovam esta verdade, e nisto o nome de Deus é honrado e glorificado, porque provamos que o nosso afeto por Ele é maior do que por qualquer outro bem deste mundo.

Em Lucas 14.12-14, Jesus nos ensina que devemos ter uma generosidade com desprendimento, não esperando receber nada em troca daqueles aos quais abençoamos com o uso dos nossos bens, porque receberemos na glória a nossa recompensa de Deus, pelo fato de termos demonstrado o nosso afeto por Ele e obediência à Sua vontade, de modo prático.

 

Quanto a se ter nossos afetos inclinados às coisas deste mundo, sabemos que isto é ruinoso e quase imperceptível. Seguramente nenhum homem sábio se aventurará espontânea e frequentemente até a extremidade de um tal precipício. “Não ameis o mundo nem as cousas que há no mundo. Se alguém amar o mundo, o amor do pai não está nele.” (I Jo 2.15).

Lembrem-se sempre que vocês não são proprietários ou os possuidores absolutos dessas coisas, mas somente mordomos delas. Deus é o grande proprietário dos céus e da terra. Somos apenas mordomos dos Seus bens. E nós teremos que dar conta da nossa mordomia (Lucas 16.1,2).

Esta regra deve sempre ser assistida como um guia santificador em todos os exemplos e ocasiões de dever.

E se um homem alcançar grandes posses, como mordomo do Senhor, que é o proprietário delas, e do próprio homem que deveria administrá-las para o Senhor, e este homem tem o pensamento que elas são propriamente e exclusivamente suas, e ainda que ele venha a fazer um uso adequado delas, ele terá que prestar contas em todo o modo, de sua mordomia a Deus.

A luz de todas estas considerações derrama anda maior luz as palavras de nosso Senhor dirigidas aos crentes em Lc 16.9-13: “E eu vos recomendo: Das riquezas de origem iníqua fazei amigos, para que, quando estas vos faltarem, esses amigos vos recebam nos tabernáculos eternos. Quem é fiel no pouco, também é fiel no muito; e quem é injusto no pouco, também é injusto no muito. Se, pois, não vos tornastes fiéis na aplicação das riquezas de origem injusta, quem vos confiará a verdadeira riqueza? Se não vos tornastes fiéis na aplicação do alheio, quem vos dará o que é vosso? Ninguém pode servir a dois senhores; porque ou há de aborrecer-se de um e amar ao outro; ou se devotará a um e desprezará ao outro. Não podeis servir a Deus e às riquezas.”. Este texto parece estar cheio de paradoxos. Mas, na verdade, nosso Salvador confirma o desprezo e a pequena conta que Deus dá às riquezas deste mundo. Jesus as denomina de riquezas de origem iníqua e injusta, chama-as de “pouco” em cuja mordomia devemos ser fiéis e justos para que sejamos colocados sobre a verdadeira riqueza que nos será concedida pela graça de Deus, e que recebemos do alto da parte do Senhor, e não deste mundo.

Elas são designadas como “bens alheios” porque de fato nada levaremos deste mundo conosco. São bens de pouco valor por maiores que eles sejam, sob os quais somos colocados apenas como administradores de Deus e para Deus. Mas há uma herança duradoura no céu que nos pertencerá para todo o sempre, e o modo lícito de entrar na posse desta herança é ser fiel na aplicação nos bens que são deste mundo.

 

E finalmente, Jesus conclui o seu ensino dizendo que não podemos servir simultaneamente a Deus e às riquezas deste mundo, como dois senhores distintos. Deus é o Senhor absoluto ao qual devemos servir. Não devemos ser servos das riquezas deste mundo. Ao contrário, devemos usá-las para servir a Deus.

Neste ponto, com este ensino do Senhor, podemos observar agora claramente que quando um homem não é liberal no uso das coisas terrestres, seja qual for a sua justificativa para o contrário disso, como o cuidado prioritário de sua própria família dispondo bens para o futuro, ou qualquer outra da mesma categoria ou diferente, na verdade, ele terá um outro senhor diferente de Deus governando os seus afetos, e de um modo ou de outro é o mundo que terá a posse do seu coração, porque os afetos de nossas mentes devem ser colocados sobre o domínio das coisas, e não sob o domínio delas.

E há ainda um ponto importante que deve ser considerado quando nossos afetos são dirigidos para as coisas deste mundo: nós somos atormentados com muitas dores por causa desta cobiça, como no dizer de Paulo em I Tim 6.10, porque isto nos desvia da fé, que mantém nossos afetos ligados a Deus, e nos ligamos ao mundo e às suas múltiplas ofertas de coisas que estimulam as nossas cobiças, que uma vez geradas produzem o pecado, e este uma vez gerado produz a morte. Ficamos assim espiritualmente mortos. Nos tornamos carnais.

Deixamos de ser espirituais. E não podemos assim discernir as coisas de Deus que são espirituais. E não somente isto nos dará muitas dores, como também as muitas frustrações que o mundo nos fará sentir pela impossibilidade de termos tudo aquilo que nossos desejos almejam. É por isso que Paulo fala de a si mesmos se atormentarem com muitas dores aqueles que têm o amor ao dinheiro em si, e não o amor a Deus. Não é possível amar ao mesmo tempo a Deus e ao dinheiro, porque são afetos que se auto excluem. Um não pode existir na presença do outro. O amor às coisas terrenas nos torna inclinados à carne, e sendo carnais não podemos ter prazer nas coisas espirituais que são de Deus. E a recíproca é também verdadeira, porque quando amamos verdadeiramente a Deus, quando os nossos afetos estão voltados para Ele, automaticamente deixamos de estar apegados às coisas que são deste mundo, na multiplicidade de todas as suas formas.

Assim, trabalhe continuamente para a mortificação de todos os seus afetos às coisas deste mundo. Eles estão, no estado da natureza corrompida, e lhes desviarão sem qualquer consideração, a menos que eles sejam mortificados pela cruz de Cristo. Qualquer mudança forjada neles, será de nenhuma vantagem para nós. É somente a mortificação das cobiças da carne que pode nos transportar das coisas terrenas para a glória de Deus.

Consequentemente é por isto que Paulo nos dá o mandamento de Col 3.2 de olharmos não para as coisas que são terrenas mas para as que são do céu. E para isto, nos dá o único modo de se poder fazer isto, no verso 5: “Fazei pois, morrer a vossa natureza terrena: prostituição, impureza, paixão lasciva, desejo malígno, e a avareza, que é idolatria.”. E esta mortificação deve ser feita pelo Espírito Santo (Rom 8.13), e com base no sangue e na cruz de Cristo (Gál 6.14).

A menos que estas coisas sejam achadas em nós, nenhum de nós pode ter qualquer evidência ou garantia de que não esteja debaixo de um poder irregular, pelo amor predominante a este mundo.

 


 

Enviado por Silvio Dutra em 28/01/2022
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