Legado Puritano
Quando a Piedade Tinha o Poder
Textos

 

“A isto, respondeu Jesus: Em verdade, em verdade te digo que, se alguém não nascer de novo, não pode ver o reino de Deus. Perguntou-lhe Nicodemos: Como pode um homem nascer, sendo velho? Pode, porventura, voltar ao ventre materno e nascer segunda vez? Respondeu Jesus: Em verdade, em verdade te digo: quem não nascer da água e do Espírito não pode entrar no reino de Deus. O que é nascido da carne é carne; e o que é nascido do Espírito é espírito. Não te admires de eu te dizer: importa-vos nascer de novo. O vento sopra onde quer, ouves a sua voz, mas não sabes donde vem, nem para onde vai; assim é todo o que é nascido do Espírito. Então, lhe perguntou Nicodemos: Como pode suceder isto? Acudiu Jesus: Tu és mestre em Israel e não compreendes estas coisas? Em verdade, em verdade te digo que nós dizemos o que sabemos e testificamos o que temos visto; contudo, não aceitais o nosso testemunho. Se, tratando de coisas terrenas, não me credes, como crereis, se vos falar das celestiais? Ora, ninguém subiu ao céu, senão aquele que de lá desceu, a saber, o Filho do Homem [que está no céu]. E do modo por que Moisés levantou a serpente no deserto, assim importa que o Filho do Homem seja levantado, para que todo o que nele crê tenha a vida eterna.” (João 3.3-15)

 

Quando Deus ordena e exige para sermos santos, ele nos ordena que sejamos o que não somos por natureza e por nós mesmos; e não apenas isso, mas o que não temos o poder de atingir por nós mesmos. Portanto, tudo o que está absolutamente em nosso próprio poder não é daquela santidade que Deus exige de nós. Pois se podemos fazer isso por nós mesmos, não há necessidade nem razão pela qual Deus deveria prometer operá-lo em nós por sua graça. E dizer que o que Deus promete funcionar, Ele não efetuará Ele mesmo, mas só vai persuadir e prevalecer conosco para que o façamos nós mesmos, é (através do orgulho da incredulidade) para desafiar a verdade e graça de Deus, e adornar a nossa própria justiça e poder.

 

Agora, Deus multiplicou suas promessas para este propósito. E então precisaremos lembrar apenas algumas delas, por exemplo: Jer 31.33, "Porque esta é a aliança que firmarei com a casa de Israel, depois daqueles dias, diz o SENHOR: Na mente, lhes imprimirei as minhas leis, também no coração lhas inscreverei; eu serei o seu Deus, e eles serão o meu povo." Jer 32.39,40, "Dar-lhes-ei um só coração e um só caminho, para que me temam todos os dias, para seu bem e bem de seus filhos. Farei com eles aliança eterna, segundo a qual não deixarei de lhes fazer o bem; e porei o meu temor no seu coração, para que nunca se apartem de mim."

 

Ezequiel 36.26, 27: "Dar-vos-ei coração novo e porei dentro de vós espírito novo; tirarei de vós o coração de pedra e vos darei coração de carne. Porei dentro de vós o meu Espírito e farei que andeis nos meus estatutos, guardeis os meus juízos e os observeis." Ezequiel 36.25: "Então, aspergirei água pura sobre vós, e ficareis purificados; de todas as vossas imundícias e de todos os vossos ídolos vos purificarei." Versículo 29, "Livrar-vos-ei de todas as vossas imundícias."

 

Veja que é Deus dizendo que é ele próprio quem irá fazer toda essa obra relativa à nossa salvação, sem que sejamos consultados ou que tenhamos alguma participação colaborativa para que esta salvação (justificação, regeneração, santificação e glorificação) seja realizada. Evidentemente, quando dizemos, sem a nossa participação, é no sentido de não haver qualquer poder ou mérito em nós mesmos para produzir estas operações relativas à salvação citadas anteriormente entre parêntesis. Nossa participação é crer, obedecer, e agir de acordo com o novo coração que o Espírito Santo formou em nós, e nos amoldando à sã doutrina, segundo as graças do Espírito que estão sendo amadurecidas em nossa nova natureza, desde o momento em que as recebemos como a semente que vive eternamente na nossa primeira conversão a Cristo. Estas graças que foram implantadas em nós em forma de semente têm um princípio interno de vida que está destinado a crescer até a plena maturidade, conforme teremos oportunidade de explicar mais detalhadamente depois.

 

“pois fostes regenerados não de semente corruptível, mas de incorruptível, mediante a palavra de Deus, a qual vive e é permanente.” (I Pedro 1.23).

 

Toda a nossa santificação e santidade está incluída nessas promessas. Porque ser santificado, ou ser santo, é ser purificado das contaminações do pecado, sejam elas quais forem. É ter um coração inclinado, disposto e capacitado para temer sempre ao Senhor; e andar em todos os seus caminhos e estatutos de acordo; com uma conformidade interna habitual de toda a alma à lei de Deus. e Deus promete operar tudo isso diretamente em nós e realizar por si mesmo. É com fé nessas promessas, e para o seu cumprimento, que o apóstolo ora pelos Tessalonicenses, que "o próprio Deus de paz vos santifique completamente," pelo qual "todo o seu espírito, alma e corpo, poderiam ser preservados sem culpa para a vinda de Jesus Cristo."

 

Assim como é Deus quem dá o crescimento à semente natural para que se desenvolva até que se torne um ser adulto que dê frutos, de igual modo é Ele quem dá o crescimento à semente espiritual que foi implantada em nós pelo Espírito Santo na regeneração. Então, não se encontra no nosso poder realizar o crescimento desta vida espiritual.

 

“Eu plantei, Apolo regou; mas o crescimento veio de Deus.Eu plantei, Apolo regou; mas o crescimento veio de Deus.” (I Coríntios 3.6).

 

Assim, tudo o que é feito pelo nosso próprio poder não é da natureza, nem necessariamente pertence à santidade, seja o que for. O melhor dos hábitos intelectuais ou morais de nossas mentes, que são apenas o aperfeiçoamento natural e o exercício de nossas faculdades, não são nem podem ser nossa santidade; nem o melhor de nossos deveres morais, como meramente e somente morais, pertencem a isso.

 

Todo o poder que temos de nós mesmos para obedecer à lei de Deus, e tudo o que fazemos na busca e exercício desse poder, pode ser reduzido ao medo de punição e à esperança de recompensa, junto com alguma satisfação presente de mente por conta da facilidade de nossa consciência interior, ou nossa reputação exterior, seja na abstinência de pecado, ou no desempenho de nossos deveres morais. Mas nada disso é a santidade que buscamos. E a razão é clara: porque essas coisas não são operadas em nós pelo poder da graça especial de Deus na busca da promessa especial da aliança, como toda verdadeira santidade é. Elas não foram produzidas pela inclinação do Espírito Santo nos movendo em nosso novo coração a tudo fazer para a glória de Deus, nos regozijando até mesmo nas próprias tribulações e sofrimentos que venhamos a sofrer em razão da nossa obediência a Ele.

 

Portanto, o que os homens chamam de "virtude moral" está longe de ser a totalidade da graça interna ou santidade, que se não for mais do que isso, não pertence à santidade de forma alguma. E lamentavelmente, muito do que se faz na igreja em nossos dias tem mais a ver com mera moralidade, do que com a verdadeira santidade. E isso é porque não está sendo efetuado em nós pela graça especial de Deus, de acordo com o teor e a promessa da aliança. Podemos nos desviar um pouco aqui, para considerar como deve ser a estrutura de nossas mentes na busca da santidade com respeito a essas coisas - ou seja, o que consideramos deve ter o comando, por um lado, e a promessa, por outro - ao nosso próprio dever e à graça de Deus. Alguns separariam essas coisas como inconsistentes entre si. Um comando (mandamento), eles supõem, não deixa espaço para uma promessa, pelo menos não tal promessa de que Deus tomaria sobre si a tarefa de trabalhar em nós o que o comando exige de nós. E uma promessa, eles pensam, remove toda a autoridade de influência do comando. "Se a santidade é nosso dever, então não há espaço para a graça neste assunto; e se for um efeito da graça, então não há lugar para o dever." Mas todos esses argumentos são fruto da sabedoria da carne mencionado antes; e nós os refutamos antes. A "sabedoria que é de cima" nos ensina outras coisas. É verdade, nossas obras e graça se opõem na questão da justificação, como totalmente inconsistentes entre si: se for de obras então não é da graça; e se é da graça, então não é de obras, como nosso apóstolo argumenta em Rom 11.6. Mas nosso dever e a graça de Deus não são opostos em nenhum lugar na questão da santificação; na verdade, um supõe absolutamente o outro. Nem podemos cumprir nosso dever sem a graça de Deus; nem Deus nos concede essa graça para qualquer outro fim que não seja o cumprimento correto de nosso dever. A pessoa que negaria que Deus nos ordena que sejamos santos por meio do dever, ou que ele promete operar santidade em nós por meio da graça, pode rejeitar toda a Bíblia com tal pensamento. Devemos, portanto, ter a devida consideração por ambos, se pretendemos ser santos. Na santificação, como disse Jonathan Edwards: “Deus tudo faz, e nós fazemos também.” Ou seja, devem acontecer simultaneamente as coisas que pertencem exclusivamente à graça de Deus realizar em e por nós, e de nossa parte as nossas ações em obediência àquilo que graça tem operado em nós.

 

“12 Não reine, portanto, o pecado em vosso corpo mortal, de maneira que obedeçais às suas paixões;

 

13 nem ofereçais cada um os membros do seu corpo ao pecado, como instrumentos de iniquidade; mas oferecei-vos a Deus, como ressurretos dentre os mortos, e os vossos membros, a Deus, como instrumentos de justiça.” (Romanos 6.12,13)

 

“Assim como oferecestes os vossos membros para a escravidão da impureza e da maldade para a maldade, assim oferecei, agora, os vossos membros para servirem à justiça para a santificação.” (Romanos 6.19b).

Silvio Dutra
Enviado por Silvio Dutra em 28/01/2022
Alterado em 30/01/2022
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